Canção de partida (ou de retorno).
Ah, quando eu te vi partir menina
Era seu ar, sua alma, seu olhar
Sua inocência de criança mal mimada
(de quem sofreu de muito amor na criação)
Que insistia em não te libertar
Ah, só eu te vi partir menina
E ainda pensei que te veria retornar
Mas era eu o menino – o inocente
Pois a menina – a do passado – ficaria
Era mulher quem haveria de voltar.
Foram estas as lágrimas que enxuguei
Mas que jamais escolheria enxugar
Jamais deixaria partir a menina
Deste obscuro destino a esconderia
Se soubesse que jamais iria voltar.
Já não posso esconder que a culpa é minha
Mas qual a culpa que eu haveria de agüentar?
Se se permite que uma flor inda “brotinha”
Encontre a sua primavera noutros climas
Longe da sombra que houvemos de implantar?
Se lá no mesmo aeroporto em que partiu
Parte de mim jamais partiu de lá
Sempre a espera do regresso: à exprimir
Uma vertigem de que o (nosso) tempo há de existir
Ignorando que jamais retornará.
Pobre menino que pensou sem ter pensado
Que todo o mundo era, enfim, mesmo lugar
Não viu rompê-la no entrelaço do destino
Desabrochando enquanto flor deste menino
Deixando a sua meninice no além-mar.
Porque sofreu, entristeceu e estava só
E a solidão é velha parteira chamada dor
A dor obriga ao aborto, à evolução
Pra que a Vida, este centro de agonia,
Não seja a causa de uma vida terminar.
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